Nunca fui a pessoa mais religiosa do mundo, mas nunca estive muito longe das paredes da religião. Dessa forma, quem me conhece sabe que criei e mesclei conceitos variados durante todos esses anos sobre Deus, espiritualidade, sobre a fé em geral (diga-se de passagem, graças aos meus pais, que sempre tiveram suas crenças mas nunca foram bitolados à nada). Então, interpretando da minha forma, busco ser o mais justo e bom possível, dentro dos meus limites, e dentro dos limites que eu possa quebrar.
E uma palavra sempre me intrigou no meu vocabulário. Duas, talvez. O “perdão” e o “arrependimento”. Complementares, elas unem uma das maiores dádivas espiritualistas do homem, coisa que nenhum outro animal é capaz de fazer. O dom de se arrepender, e o dom de perdoar.
Começando pela primeira, bem, eu me lembro de ter soltado frases como “jamais me arrependi de nada que fiz na vida” e coisas do tipo, num passado não tão remoto. Hoje, entretanto, eu diria que isso soa mais como arrogância do que como uma inabalável convicção. Parando pra pensar, é possível que eu repetisse os mesmos erros, caso pudesse voltar no tempo. Mas isso não quer dizer que eu não me arrependa…
Lembro de, uma bela vez, ter me encantado demasiadamente por uma garota. Essa, por outro lado, namorava – o que só descobri tarde demais, infelizmente. Acabei criando uma cisma enorme contra o namorado dela que, entre defeitos aqui e acolá, já me conhecia e sempre foi muito simpático comigo – até amigável, eu diria. Cheguei a baixar a poeira por uns tempos, até que comecei a dar ouvido à fofocas (e fofoqueiras) alheias que me envenenaram contra o rapaz.
Conclusão? Briguei, acusei e julguei o mesmo na cara dele, em frente ao seus melhores amigos, sem um pingo de receio de estar faltando com a verdade (e sem medo de perder os dentes). De condená-lo por uma traição que, talvez, no fundo, ele realmente fosse inocente. Eu tinha uma certeza tão imensa, quase uma cegueira, que mal parei pra pensar se estava errado. E o pior é que no fim não consegui provar nada, com exceção de uma coisa: que a pessoa que me envenenou era falsa. E que talvez eu tenha perdido a amizade de um cara bacana e de boa em troca de uma cobra interesseira e materialista. Azar o meu, né?
Não foi o único erro que cometi nos últimos anos, nem o único na questão “relacionamentos”. Há bons tempos atrás, conheci uma menina linda, daquelas que eu tanto procurava encontrar: simpática, com um gosto musical notável, tagarela – no melhor sentido da palavra – e romântica, eu diria. O único detalhe distinto das minhas preferências é que ela era ‘loira’ (apenas na época – pois lembro até dela brincar dizendo “que bom, porque na verdade eu sou morena!”). Depois de muito papear pela net, marcamos de nos encontrar num shopping da cidade pra depois ir numa consulta médica dela, no centro, na qual ela me pediu e entrei junto. Apesar de não haver nada demais, fiquei feliz com a atitude, uma leve (mas notável) demonstração de confiança por mim. Saindo de lá, lembro de termos conversado horrores à tarde toda, andando pelas ruas, voltando ao shopping, zanzando, tomando um suco… e de eu, realmente envolvido, tentar beijá-la em determinado momento.
No fundo, aquele não era muito “eu”, era apenas um cara tentando tomar mais atitude que o normal, talvez por dar ouvido demais aos outros (o que nunca precisei, não sei porque raios me influenciou naquele dia). Graças à Deus, ela não se ofendeu e até voltou atrás no final do passeio, praticamente me convidando pra sair de novo e me dando um selinho (não disse que era romântica?). Fiquei contente, voltei feliz pra casa e só pensei nela o dia todo. Por coincidência, naquele dia, descobri que um amigo próximo gostava dela. Péssimo, mas contornável. Só que logo depois, cai doente, mais uma vez. E repetindo um erro do passado, em vez de contar a garota o que se passava, não… optei por omitir, ou pior, me afastar, pra que ela não se apegasse à mim e poupar alguma dor. Um doce engano, uma vez que, acredito, ambos já haviam se apegado um ao outro. Acabei por deixá-la no silêncio, aos poucos, até que obviamente sua amizade por mim se perdeu e a minha coragem de recuperá-la (do tipo de cruzar com ela um ano depois e virar os olhos), idem.
Há também uma terceira história, mais complexa, que gostaria de contar. Por hora, acho que isso já basta. Serve pra guardar exemplos de arrependimento, de que, se eu pudesse voltar no tempo, talvez fizesse diferente. Mas não posso, então, guardo pra quem sabe um dia me perdoem. Quem sabe uma dia eu tenha coragem de pedir perdão às pessoas que magoei de tal forma ou parecida. Ontem eu achava impossível. Hoje, já não acho. Não depois que pude perdoar alguém e sentir um enorme alívio da minha parte.
Assim, talvez amanhã eu possa tocar e cantar com esse velho amigo. Talvez amanhã eu possa chamá-la novamente pra sair, e sim, seria diferente…