Feeling.
Tá aí uma palavra que me intriga bastante. Não a palavra em si, mas seu significado. E não consigo enxergá-la apenas como “sentimento” em inglês. Pra mim há um toque místico, mágico, espiritual, ou seja lá o que raios você quiser imaginar. É um sentimento maior, daqueles que ocorrem raras vezes, com raras pessoas. É um… “feeling”.
Aliás, se me permitem citar uma historinha, talvez ajude a entender e me expressar…
Há milênios atrás, eu freqüentava um fórum sobre vocalistas de rock (acho que isso já mostrava uma pré-disposição maior ao microfone do que à guitarra, mas continuemos hehe). Criado pelo André Rimas, um puta professor de canto paulista, sempre atraiu gogós de todos os cantos do Brasil, além de curiosos – como eu. Era uma maneira de descobrir grandes vozes da música e ver umas “faíscas” rolarem em discussões haha! E foi por lá que conheci uma banda, mais especificadamente uma voz, que ouso dizer que mudou minha vida. =]
O nome dela era Pain of Salvation, conhecida até então apenas como “uma revelação suéca do prog metal”. Seu líder, um tal de Daniel Gindelöw, parecia um sujeito ousado, multi-instrumentista e um letrista de mão cheia. Suas canções variavam entre a dificuldade das relações humanas, passando por críticas (pesadas) a política norte-americana e até altas doses existencialistas inspiradas no panteão de filósofos gregos. Assim, ao longo dos anos, o “PoS” pulou de álbum em álbum sendo aclamado pela crítica, por suas mudanças e inovações sonoras, pela versatilidade e profundidade dos conceitos. O único rótulo cabível ainda era “rock/metal alternativo”. E por diversas vezes, foram considerados o “Pink Floyd Moderno”. Nada mal, né?
Mas ainda nem falei do maior destaque do conjunto: a voz de Mr. Gindelöw.
Quando ouvi pela primeira vez, apenas achei diferente. Uma voz mais grave – possivelmente um barítono – quase sussurrada na melancólica “Ashes”. Não era como os agudos operísticos (que costumava a ouvir naquela época) típicos do “metal melódico”. Era até estranha. Porém, parecia que algo daquela música ficou ressoando na minha cabeça, algo cativava, e quase sem perceber, eu iria cantarolar o refrão mezzo-sombrio pelos cantos da casa por diversos dias. E só. Porque ainda não existia Youtube, Orkut – e minha pessoa não tinha coragem de baixar os álbuns sem comprá-los (também não haviam tantos sites quanto hoje pra isso rs).
Então surgiu a Luciana. Aluna de canto lírico do Conservatório Souza Lima, bixo em Fonoaudiologia na USP e fã do PoS de carteirinha. Ela foi a culpada haha! Muito do que eu sei sobre música devo a essa menina, pra lá de gabaritada, e aos poucos também conheci muito do Pain of Salvation através dela. Descobri que as letras daqueles caras me ajudaram muito naqueles tempos. Descobri que o Daniel era ninja em drives, vibratos, falsetes e outra bizarrices vocalísticas. Descobri o quão a técnica dele era apurada, mas que seu sentimento ultrapassava – e muito – isso. Descobri “o” intérprete.
E lembro de mais duas coisas…
Um tópico no fórum, criado não sei por quem, pra falar sobre o Daniel após uns shows do PoS no Brasil. Diversos foram os elogios, até então não unânimes, mas que se tornaram unânimes ao decorrer da discussão e de vídeos como “Iter Impius”;
A frase da Luciana, suspeita – é verdade – mas marcante: “Eu fico até meio dividida pra falar desse cara. Por um lado, estou extremamente feliz por ter conhecido o melhor vocal do mundo! Por outro, me bate até uma angústia de saber que aos meus 20 e poucos anos, já conheci o melhor do mundo! E agora? Vou ter que procurar outro alguém no Universo? (risos)”
Resumo da Ópera:
Quem chegar até aqui, vai descobrir que esse texto não tem nada haver com o Pain of Salvation. Ou, ok, tem haver em partes rs! O Daniel é meu vocalista preferido, até hoje, me influênciou bastante e eu morro de raiva de não conseguir fazer o que ele faz rs! Mas além de tudo, ele me mostrou esse “feeling”, essa raridade de sentimento, de compatibilidade, de sincronia que nós temos por alguém ou por algo, em algum momento. Percebi isso com essa banda (e com o L’arc~en~Ciel) em relação a música, e hoje percebo com outras coisas. É aqui que eu queria chegar.
O feeling surge quando há pessoas, porque é inerente a nós, a vida. Não existiria na música se canções fossem compostas por pedras haha! E o que mais vale nesse mundo são nossas relações pessoais, com aqueles que nos querem bem e que nós amamos. Seja alguém de longa data, seja alguém que você conheceu pela manhã. Dá pra sentir algo diferente com esses “alguém(s)”, há esse toque especial. Então despertamos o feeling. É o que percebo com contáveis (e notáveis) amigos. É o que percebi, pela última vez, a quase duas semanas. Uma sensação agradável do tipo que tranquiliza, que completa, não por ser perfeita, mas por agregar qualidades que – falando por mim – às vezes coincidem ou simplesmente me faltam. E quando junto, não faltam mais.
E dá aquela dor no peito de pensar “Meu Deus, eu encontrei! Encontrei o feeling! Mas e agora? Eu mereço isso? Corro o risco de perder isso? Parece que não faz mais sentido procurar e procurar. É um brilho tão distinto, tão louvável, que não posso descrever em palavras. É inenarrável! Por favor, ao menos me dê sabedoria pra manter esses tesouros que achei”.
Pois é. Se existe uma felicidade que de tão enorme até dói, ela está descrita nessa frase/oração acima. Dá medo que roubem algo tão belo de nós, o que é pura besteira, claro. Sentimentos tem o dom de se multiplicar. E embora minha breve experiência de vida tenha me ensinado a dar valor ao concreto, e que sempre podemos nos surpreender além do imaginado, ela me ensinou também que intuição e oportunidade não são apenas coisa de mãe ou contar com a sorte. São coisas palpáveis e sólidas em diversos momentos. Somos nós quem criamos, somos nós que concretizamos.
Portanto, talvez seja exagero dizer que o Daniel Gindelöw é o melhor vocalista do mundo, certo? Talvez. Porém, pra mim ele ainda é, e mesmo se um dia deixar de ser, ainda será digno do trono. É o que penso sobre todos os momentos cheios de feeling pelos quais tenho passado. São os melhores! Vem daqueles lugares e pessoas que são e continuarão sendo as melhores, seja no alto do pódio, seja num degrauzinho ao lado. E ao meu lado, eu espero, de coração.
Paro por aqui sem conseguir definir direito o tal do “feeling”, mas sabendo que certamente ele existe.
(E post dedicado à Helena, vulgo “Rainha de Troiá sem Troiá”, que hoje completa 18 aninhos e é, de alguma forma, parte desses últimos tesouros que encontrei e que não deve saber, mas já trás um brilhinho a mais ao meu caminho. Parabéns Lê!).